Foto: Lisiane Aguiar

“Elegemos o Brasil por ser o país mais próximo, mas o idioma é um desafio que ainda nos distancia dos brasileiros”  - Mirla Isabel

por Lisiane Aguiar

Mirla Isabel, 26 anos, está há um ano no Brasil. Na Venezuela seu dinheiro já não era suficiente para os gastos básicos e se preocupava pela saúde de seu filho de 5 anos, pois não havia medicamentos. Quando chegou a Roraima viveu 7 meses na rua e descreve que foram meses muitos difíceis. Ela conta ainda que seu marido vai com frequência à Venezuela para levar comida e medicamentos para seus familiares, mas sempre retorna ao Brasil na expectativa de encontrar um trabalho fixo.

 

Foto: Juliana Orihuela

Na Venezuela ela trabalhava como manicure e vivia com seus pais. A casa em que morava era compartilhada com seus outros irmãos e se sentia feliz, pois estavam todos juntos. Ganhou seu primeiro filho com 21 anos. Está grávida de nove meses e espera ter sua segunda filha em Boa Vista. Vive no abrigo Nova Canaã com sua mãe e seu marido. Sente a dificuldade de ter um filho num abrigo, mas busca transformar, a cada dia, aquele pequeno espaço feito de lonas em um lar. Ela recorda que a vivência em uma praça é desafiadora, ao não ter um teto, com um filho de 5 anos e grávida.

 

Até o momento, Mirla não pretende regressar à Venezuela. Pois quando conversa com sua irmã, que ficou no Estado de Anzoátegui, essa relembra a dificuldade de comprar alimentos e medicamentos. Fugindo desse cenário de escassez, ela resolveu enfrentar dois dias de viagem com a família para recomeçar a vida no Brasil. O que para muitas pessoas é uma situação cotidiana para ela foi decisivo para que Mirla viesse para Boa Vista ter sua filha: a busca por um hospital, medicamentos e comida.

 

Para Mirla o idioma é um obstáculo para a integração. Muitas pessoas criam uma associação com venezuelanos pedintes ao escutar a fala espanhola. Já escutou várias vezes: “volta para seu país, você não é daqui!”. Por conseguinte, às vezes sente vergonha de falar espanhol nos espaços públicos. Mesmo assim, esse tipo de hostilidade não a desanima, pois conforme explica, sabe que no Brasil também há muita gente amável e disposta a ajudar.