Foto: Juliana Orihuela

"Se as pessoas percebem que você é venezuelano, já mudam a forma de agir" - Abigail

Por Ana Clara Bernardes

Abigail tem 28 anos e é natural de Puerto La Cruz, no estado de Anzoátegui. Ela trabalhava no setor hoteleiro e já atuou como camareira e recepcionista em hotéis de sua cidade. Abigail está no país faz dois meses e veio acompanhada de seus filhos, sogros e cunhado. A decisão de vir para o Brasil foi tomada pela família quando a vida confortável que tinham, deu espaço a uma realidade de escassez de alimentos e remédios. O trajeto para o país foi feito de ônibus até Pacaraima. Na cidade, esperaram por quatro dias para conseguirem a permissão, enquanto a recebiam, passaram frio, fome e necessidades.

Ao chegarem em Boa Vista, a família inicialmente morou em uma casa alugada pelo esposo de Abigail, que veio para o Brasil em busca de trabalho, sete meses antes. Entretanto, o dinheiro acabou e eles foram despejados. Por um mês tiveram que morar nos arredores da Rodoviária de Boa Vista. Nesse período foram alvo de xenofobia. Abigail conta, com tristeza, que em uma madrugada alguns policiais abordaram seus filhos e, sem motivo algum, jogaram spray de pimenta nas crianças. Ela comenta que: “Se as pessoas percebem que você é venezuelano, já mudam a forma de agir”.

 Foto: Fabricio Carrijo

Atualmente, Abigail e família moram no abrigo Rondon 1 e, apesar, de estarem em condições melhores do que na rua, nada apaga as memória do conforto, por eles vividos, na Venezuela. A antiga casa da família era grande e espaçosa. O jardim estava sempre florido e haviam muitas plantas por todo o espaço. Abigail se considera vaidosa e recorda, saudosa, dos hábitos de beleza que cultivava durante sua vida na Venezuela. Gostava de estar bem arrumada, perfumada, com cabelo feito e o rosto maquiado, aspectos de sua antiga realidade que, hoje, ela não consegue mais manter. A vaidade ficou em segundo plano pois não há espaço para cultivá-la.

Abigail sente falta dos momentos de lazer com a família; sente falta de seus pais; da comida venezuelana; sente falta de não ter as preocupações intrínsecas à realidade de um imigrante venezuelano no Brasil. Seus planos para o futuro são de conseguir ser interiorizada para Santa Catarina.

A escolha desse estado aconteceu porque ela ouviu falar que o clima é mais agradável, assim como o trato das pessoas para com os imigrantes. Seu maior desejo é conseguir um emprego para juntar dinheiro suficiente para voltar à Venezuela, assim que a crise passar, e ficar com seus pais que já são idosos.